Crônica de um Desabafo!

Por Rosiane Braga
Fotos: Samuel Martins

Hoje vim aqui e confesso que irei fazer bom uso desta oportunidade para descrever nessas linhas toda minha vontade de gritar. Talvez ao colocar esta agonia neste espaço irei exaltá-la pela rede e um maior número de pessoas compreenderá o que estou sentindo. Porque aquelas pessoas que me viram aos berros na semana passada ficaram com olhos esbugalhados e já me definiram perdida em um estado de loucura.

Estava sentada no sofá da sala quando começou a chover. O desespero chegou quando a mãe do meu pai, que é a minha avó materna entrou correndo e chorando porque a água sem ser convidada entrava pela porta da cozinha. Eu não sabia o que iria fazer neste momento. No mês de maio eu me lembrava das notícias circulando pelo estado de que a seca iria comprometer as lavouras de milho daqui.

Perguntei a mãe natureza o que estava acontecendo, ou se aquilo significaria o desabafo contra as ruindades dos homens que vivem perambulando pelo sertão, a mando das famílias que controlam o poder por aqui. Só sei que aquele dia, foi o último que escutei a minha avó. A ponte que eu via quando olhava pela janela da areazinha da despensa não estava mais ali.

Por aqui não existe luz e comunicação, toda a comunidade sofreu os danos por causa das cheias. Os livros foram destruídos, os prédios devastados e ainda tenho a minha carteira de identidade. Fiquei feliz quando o homem salva vidas me entregou-a, quando acordei naquela barraca de lona. Ao mesmo tempo quando o perguntei da minha avó, compreendi que a minha vida nunca mais seria a mesma.


Não consigo olhar para a escola ao qual dediquei a minha vida a ensinar. Onde estarão as minhas crianças? Todas as escolas daqui que não foram atingidas pela água e pela lama estão sendo usadas como abrigo para as famílias que perderam suas casas. Ai que saudade da Geninha, minha querida amiga de infância! Morreu esta semana de leptospirose.

Moro em um dos menores estados do Brasil. Até estes dias um lugar com escassez de chuvas e de clima semi-desértico. Quem poderia me explicar? O que aconteceu neste mundo de meu Deus? Obrigada a você que chegou até aqui e ao qual eu pude gritar a minha dor. A água levou o meu sonho que de novo pretendo construir. O que me resta é lutar com o meu povo de Pernambuco. Nordestina com muito orgulho! Sentirei honrada e defenderei o nome de meu estado, que em tupi significa “o mar que bate nas pedras”.

Comentários

  1. "A água levou o meu sonho que de novo pretendo construir".

    Força! Temos de recomeçar sempre...Ainda que com ferramentas gastas.

    Um beijo

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  2. Boa noite, amiga Rosiane.

    Não estou encontrando palavras...
    Você perdeu a sua avó? A sua colega de infância?
    Qualquer consolo se perde na profundidade da sua dor.

    Só Deus! Só ele, para aliviar seu coração e confortar a sua alma.

    Sinto muito... muito!!!

    Um grande abraço no coração.

    ResponderExcluir
  3. Lídia,
    Amapola,
    Graças a Deus não foi eu quem passou por
    esta situação. Apenas escrevi uma crônica
    para tentar explicar a dor das pessoas que
    moram no Estado de Pernambuco e que perderam tudo, pelas enchentes. A dor desta professora, remete a dor de muitos cidadãos. Escrevi em primeira pessoa para ficar mais explícito!
    Obrigada pela visita!
    Abraço amigo!

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